Consumidor está mais endividado
Dom, 12 de Setembro de 2010 00:00
Escrito por Sérgio Nardi
É Hora de começar a descer a ladeira do consumo, pisando no freio e engrenando a marcha da consciência. O Brasil vive um momento histórico, crescimento constante na última década, ações de empresas brasileiras valorizadas interna e externamente, integrante do seleto grupo do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), países emergentes com as melhores perspectivas de crescimento, aliado à recente “lição” para o mundo, de como enfrentar uma crise mundial de proporções catastróficas, que abalaram dezenas de economias tradicionais ao redor do globo.
Mágica, feitiçaria ou sorte? Na verdade uma conjunção de fatores que inicia no Plano Real com o governo Fernando Henrique e que se prolonga na mesma receita pelo governo Lula e que vem propiciando esse salto da economia nacional.
A estabilização financeira da moeda, sua valorização e a quase inexistência de inflação favoreceram ganhos efetivos de poder de compra, principalmente para as camadas mais populares, ditas de baixa renda que associado a uma efetiva oferta de crédito, dirigida a esse consumidor, ávido em poder participar da dinâmica econômica de compra resultaram em números superlativos para o varejo, o comércio em geral e a economia nos últimos tempos.
Porém qual o limite da inconseqüente oferta de crédito associada ao ímpeto desmedido de consumo da população de baixa renda? O óbvio, que começa de forma ainda tímida, a ser notícia e objeto de estudo. Segundo a FECOMERCIO, através de sua pesquisa Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência), mais de 1,8 milhões de pessoas contraíram novas dívidas, em agosto, na capital paulista. A pesquisa ainda mostra que 49% das famílias têm sua renda familiar total comprometida com pagamentos da ordem de 11% a 50% do total da renda e para 24% da população pesquisada, a situação é mais crítica e o grau de endividamento supera os 50% da renda familiar mensal.
O cartão de crédito é o maior vilão registrado na pesquisa com 69% das dívidas seguido de longe pelos carnês de loja, que acusam inadimplência na casa dos 24%.Saindo da capital paulista em busca do termômetro Brasil, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ouviu 3.810 famílias em 214 cidades do país e 37,80% responderam que não terão como quitar suas dívidas, enquanto pouco mais de 36% acredita que possa pagar as contas de forma parcial e gradual. A região Norte Nordeste apresenta o maior índice de inadimplência, enquanto que no Norte mais de 53% responderam que não vão honrar as dívidas em atraso, entre os nordestinos esse índice beira os 47%.Se compararmos o nível de endividamento das famílias brasileiras em relação aos países europeus e aos Estados Unidos, a situação não preocupa, uma vez que o endividamento brasileiro, em relação a esses países, ainda é baixo. Mas não podemos nos esquecer, que muitos desses países amargam crises econômicas sem precedentes e foi do refinanciamento de dívidas imobiliárias americanas que surgiu a crise subprime em 2008.
O crédito é necessário e o maior agente fomentador para economia nacional nesse momento, mas o óbvio da crescente inadimplência deve servir de sinal amarelo para uma distribuição de crédito com mais qualidade. A situação só não é pior, pois o alto grau de inadimplência, praticamente não atinge as instituições financeiras de crédito, uma vez que a taxa de juros embutidas nos financiamentos é tão extorsiva, que conseguem ajustar as perdas temporárias com a inadimplência.
Mesma situação não goza o consumidor, principalmente o de baixa renda, que em estudos realizados, como Marketing para o Varejo de Baixa Renda de 2006 e A Nova Era do Consumo de Baixa Renda de 2009, ilustravam um consumidor carente em consumir a qualquer custo, por conta da sua “exclusão” do mercado em tempos de inflação e o problema da baixa e precária escolaridade, fator que ainda hoje, coloca esse mesmo consumidor a mercê do mercado, sem a percepção sobre juros e com dificuldades latentes, nas duas operações matemáticas básicas, adição e subtração.
Ainda de acordo com o IPEA, 23,5% das famílias têm dívidas entre uma e duas vezes o salário. Outros 16% têm entre duas e cinco vezes a renda mensal comprometida e para 23% dos entrevistados, a situação é ainda mais preocupante: o endividamento supera em cinco vezes a renda familiar mensal. A opção do consumidor, a partir de agora, é a racionalização e a priorização das necessidades na hora da compra, para um equilíbrio eficaz entre receita e despesa no médio e longo prazo.
Hora de começar a descer a ladeira do consumo, pisando no freio e engrenando a marcha da consciência, pois se o consumidor continuar no banguela desenfreada, lá na frente não existirá cinto que segure o choque inevitável.
*Sérgio Nardi é palestrante, escritor, especialista em gestão empresarial e autor dos livros “A Nova Era do Consumo de Baixa Renda”, “Marketing para o Varejo de Baixa Renda” e “Viva Melhor”.
domingo, 12 de setembro de 2010
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